Altair Tavares
Causou surpresa a iniciativa do deputado Wellington Valin (PT do B), em acordo com ao governo do Estado, que culminou com a inclusão da proposta de Emenda Constitucional que propõe a alteração do percentual da UEG no orçamento público estadual de 2% para 0,25%. O governo Alcides Rodrigues deve se preparar para enfrentar uma forte mobilização política contra a medida que é considerada antipática. Nos primeiros dias, a medida não foi entendida e o governo do Estado, mais uma vez, expõe problemas de comunicação. Pode ser que as razões sejam plausíveis. Politicamente, causa arranhões na relação entre o governo e o PSDB.
Das lideranças partidárias e representantes do PSDB na Assembléia Legislativa, a primeira reação foi de surpresa e contrariedade. Compreensível e previsível. Acontece que a criação da marca UEG é um caso de tratamento especial por parte do partido, mas com especial atenção do ex-governador Marconi Perillo, estrela de primeira grandeza e orientador máximo da instituição. Afinal de contas, é uma espécie de "menina dos olhos" dele. O coro dos descontentes contra a Emenda Constitucional vai empurrar o PSDB contra o governo Alcides Rodrigues.
Do outro lado, está o governo Alcides Rodrigues e sua luta para ajustar as contas do Estado. As justificativas para a alteração são coerentes: uma simples separação entre a folha de ativos e inativos e os investimentos. O dinheiro da UEG, no percentual de 2%, era virtual, neste e no governo anterior. Agora, explicou o secretário da ciência e tecnologia, Gilberto Santana Braga, o ajuste consolida os investimentos na universidade. Ele argumenta que em 2008 foi investido, em termos nominais, mais do que nos últimos 14 anos em ciência e tecnologia por parte do governo de Goiás.
De forma cega, os integrantes do PSDB dispararam críticas contra a emenda constitucional sem o conhecimento das razões do governo, incluindo o senador Marconi Perillo. Também errou o governo do Estado que poderia ter exposto os dados financeiros reais antes que a medida fosse apresentada, para a sociedade, os políticos, e a diretoria da UEG. Errou o reitor da universidade, Luiz Antônio Arantes, que criticou o governo sem, também, conhecer o projeto, do ponto de vista da confiança política que deveria ter em relação à estrutura do governo. Se fosse um prova, todos seriam reprovados, sem direito a recuperação. O caso serviu, mais uma vez, para expor a acidez no relacionamento entre PSDB e o governo Alcides. Mais uma vez, entra em cena a forma como o governo Marconi passou a administração para o governo Alcides. A chapa ta esquentando.
Mundo cinza
Luciano Pires
É cada vez mais difícil tomar posição sobre grandes questões em debate. Ambientalistas x desenvolvimentistas, criação x evolução, esquerda x direita, ciência x religião.Todo mundo tem certeza, todo mundo tem razão. A gente lê uma argumentação brilhante e concorda. E - graças à internet - segundos depois lê contra-argumentação tão brilhante quanto e também concorda.
Dá a impressão que antigamente as coisas eram mais claras. De que havia o preto e o branco, o bem e o mal e não era difícil escolher que lado ficar. Mas será que essa "facilidade" acontecia por serem as coisas, digamos, mais simples? Ou será que antigamente, sendo mais jovens e inexperientes, nosso repertório, conhecimento, raciocínio é que era simplório e escolhia de forma superficial, pelas aparências? Conforme vamos evoluindo, ouvindo e lendo mais, refinando a capacidade de análise, reparamos nos detalhes sutis, entendendo as argumentações sofisticadas e a multiplicidade de pontos de vista. E o que era preto ou branco - pela certeza da ignorância - fica cinza...
Por exemplo, a Colômbia acertou ou errou quando invadiu o Equador para liquidar os terroristas das FARC? Em minha opinião errou. Quebrou um princípio: invadiu a casa do vizinho. Isso não se faz, é um ato de violência, passível de retaliação. Mas a Colômbia acertou: eliminou os terroristas que estavam seqüestrando, matando e ameaçando um governo democratico. Mesmo que para isso tivesse que invadir a casa do vizinho.
Portanto, tenho que condenar a Colômbia. Mas não me atrevo a censurá-la. No lugar de Uribe eu faria a mesma coisa. É o choque entre princípios e pragmatismo. Quem estuda política está familiarizado.
Princípios ou crenças e valores constituem a base que suporta as ações de um indivíduo. São como filtros que determinam aquilo que entendemos como certo, correto, justo e leal. Esses filtros são desenvolvidos ou inibidos conforme nossa educação, na família principalmente, pelos exemplos de nossos pais e das pessoas que estão próximas enquanto crescemos.
Por exemplo, tenho como princípio não roubar. Qualquer ação que eu decidir praticar tem que estar de acordo com esse princípio e não admito deslizes. Mas então surge o pragmatismo, o ponto de vista que subordina a verdade à utilidade. Não roubo, por princípio. Mas se a vida de meu filho depender de eu roubar, vou roubar sim. Você pode até dizer que é compreensível, que o princípio do roubo foi atropelado por um mais forte: o da preservação da vida. Mas a decisão terá sido pragmática.
O caso das pesquisas com as células-tronco envolve o mesmo conflito entre princípios e pragmatismo. A legalização do aborto. E a questão do aquecimento global. Lula abraçado a Sarney ou Collor é um exemplo do pragmatismo. O discurso idealista da esquerda cai por terra assim que ela assume o poder. Muitos dirão que Lula está errado. Outros dirão que se ele não agir assim, não governa: para exercer política é necessário ser pragmático.
E passamos a aceitar certos deslizes como sendo "parte do jogo". Deixamos de lado princípios em nome do pragmatismo.Esse é o momento em que a luz de alarme deve ser acesa. Afinal, o que é que leva em consideração para escolher um amigo ou eleger um político? Os princípios ou pragmatismo dele? Pois é... Não existe mais preto ou branco. O mundo ficou cinza.